O hábito da virtude

A morte de Sócrates é a representação de Jacque Louis David dos últimos momentos de Sócrates antes de sua morte. 

Por Thais Rocholi

As primeiras reflexões que envolvem o pensamento moral surgiram com Sócrates quando fez perguntas acerca da virtude, dando encorajamento as pessoas para que indagassem tais questões de modo racional. A alma humana precisa controlar o corpo e para isso a alma deve ser  guiada pelo Bem, de tal forma que as nossas mentes são capazes de compreender o objetivo universal. Existem quatro virtudes principais: sabedoria, autocontrole (temperança), coragem e justiça. Santo Agostinho e outros pensadores cristãos adotaram este pensamento, porém uniu às três virtudes Bíblicas: fé, esperança e amor.

Ao privilegiar as virtudes, Aristóteles examina sua formação por meio dos hábitos. Ele diz que existem dois tipos de virtude: moral e intelectual. A intelectual acontece por meio do ensino, da experiência e do tempo. A moral é desenvolvida por meio do hábito, ou “repetição dos atos correspondentes”. Aristóteles sugere aprendermos as virtudes na prática. Porém, não se engane, porque essas virtudes não vêm de nós. Nós nascemos com sentimentos, mas nos tornamos pessoas virtuosas por meio de nossas ações.

E é claro que ele também  retrata que nenhuma das virtudes morais surge em nós por natureza, pois nada que existe por natureza pode formar um hábito contrário à sua natureza. Leitores dedicados de autoajuda, sempre em busca de melhorar o comportamento social, parece que estão obcecados em comprar qualquer livro, menos aqueles que guiam em direção da luz, Aristóteles escreveu que “a virtude moral surge como resultado do hábito.”  Somos “adaptados por natureza para receber as virtudes, tornando-as perfeitas pelo hábito”. Curiosamente, Aristóteles acredita que não temos virtude até que a usemos.

A virtude é um meio termo entre os extremos. Ter coragem é se posicionar no equilíbrio, onde se encontra a covardia (excesso de medo) e a imprudência (escassez de medo). Precisamos buscar praticar a sabedoria para optar pelas virtudes determinando a média pesada nessa balança de equilíbrio.

De fato, cada cultura tem seus próprios hábitos ou virtudes, como uma janela para sua vida que são aprovados socialmente. Não podemos dizer que as virtudes de uma cultura sejam melhores do que as virtudes de outra cultura. Virtudes são hábitos que promovem o bem, visto em termos de prazer e dor. A virtude Suprema é ter um caráter para agir individualmente buscando as melhores consequências em tudo que fazemos.

Na filosofia aristotélica as virtudes são “modos de escolha ou envolvem uma escolha”.  É ser guiado pela contramão das paixões que nos “movem”, formando um estado de espírito ou humor “particular” para as nossas escolhas. A simples capacidade de sentir as paixões não nos qualifica como pessoas boas ou más. Em contrapartida, nenhum hábito de sentir pode ser uma barreira para que o ser humano alcance a virtude. Mas se fizermos escolhas ruins, isso altera o nosso “estado de caráter”. Não somos “feitos bons ou maus por natureza”, mas escolhemos esse estado de espírito.

Aristóteles explica sua filosofia de escolhas analisando o vício, a virtude e o equilíbrio. O objetivo de toda virtude é o equilíbrio. Tudo na vida que é em excesso é uma forma de fracassar, já a falta ou defeito, nessa intermediação é elogiada e até aplaudida. Ele compara isso à luta livre, se fizermos muito exercício, ficamos sobrecarregados, e quando não fazemos o suficiente não estamos totalmente preparados para lutar. Um exemplo de virtude na proporção adequada para Aristóteles quanto ao equilíbrio é ter o “orgulho adequado”. O excesso é “vaidade vazia” e o defeito ou falta é “humildade indevida”. O homem inflado é tão mau quanto aquele que usa a falsa humildade.

Apesar de ser uma filosofia pré-cristã, não existe nenhuma vantagem em relação ao evangelho de Cristo, que nos oferece uma explicação para o pecado, a queda, a ressurreição e a redenção. Aristóteles percebe a dificuldade humana de tentar “ser bom” e enxerga o bem através de seus próprios esforços. Ele não tem o padrão de Cristo para medir o bem. Ele fala em torno da ideia cristã  através do Paráclito, o Espírito Santo, vendo vagamente, quando diz que somos “adaptados por natureza”. E, assim, há um agir sobre nós para nos tornarmos capazes de receber a virtude, que nas obras de São Tomás de Aquino caracteriza o pensamento do bom uso do livre arbítrio, sendo a virtude como a ordem do nosso amor, num ato de perfeição que opera em nós por causa da natureza do próprio Deus.

The habit of virtue

By Thais Rocholi

The first reflections involving moral thinking arose with Socrates when he asked questions about virtue, encouraging people to ask such questions in a rational way. The human soul needs to control the body and for that the soul must be guided by Good, in such a way that our minds are able to understand the universal goal. There are four main virtues: wisdom, self-control (temperance), courage and justice. St. Augustine and other Christian thinkers adopted this thought, but he joined the three Biblical virtues: faith, hope and love.

By privileging the virtues, Aristotle examines his formation through habits. He says that there are two types of virtue: moral and intellectual. The intellectual happens through teaching, experience and time. Morality is developed through habit, or “repetition of corresponding acts”. Aristotle suggests that we learn virtues in practice. However, make no mistake, because these virtues do not come from us. We are born with feelings, but we become virtuous people through our actions.

And it is clear that he also portrays that none of the moral virtues arises in us by nature, because nothing that exists by nature can form a habit contrary to its nature. Dedicated self-help readers, always looking to improve social behavior, seem to be obsessed with buying any book, except those who guide towards the light, Aristotle wrote that “moral virtue arises as a result of habit.” We are “adapted by nature to receive the virtues, making them perfect by habit”. Interestingly, Aristotle believes that we have no virtue until we use it.

Virtue is a middle ground between extremes. To have courage is to position yourself in balance, where cowardice (excess of fear) and recklessness (scarcity of fear) are found. We must seek to practice wisdom in order to choose virtues by determining the average weight on this balance scale.

In fact, each culture has its own habits or virtues, as a window on its life that is socially approved. We cannot say that the virtues of one culture are better than the virtues of another culture. Virtues are habits that promote good, seen in terms of pleasure and pain. The supreme virtue is to have a character to act individually seeking the best consequences in everything we do.

In Aristotelian philosophy, virtues are “modes of choice or involve a choice”. It is to be guided by the opposite of the passions that “move” us, forming a “particular” mood or mood for our choices. The simple ability to feel the passions does not qualify us as good or bad people. On the other hand, no habit of feeling can be a barrier for the human being to reach virtue. But if we make bad choices, it changes our “character state”. We are not “good or bad by nature”, but we choose this state of mind.

Aristotle explains his philosophy of choices by analyzing addiction, virtue and balance. The goal of all virtue is balance. Everything in life that is in excess is a way of failing, while the lack or defect, in this intermediation is praised and even applauded. He likens it to wrestling, if we exercise a lot, we get overwhelmed, and when we don’t do enough we are not fully prepared to fight. An example of virtue in the proper proportion for Aristotle in terms of balance is having “adequate pride”. The excess is “empty vanity” and the defect or lack is “undue humility”. The inflated man is as bad as the one who uses false humility.

Despite being a pre-Christian philosophy, there is no advantage over the gospel of Christ, which offers an explanation for sin, the fall, the resurrection and redemption. Aristotle realizes the human difficulty in trying to “be good” and sees the good through his own efforts. He does not have the standard of Christ to measure good. He talks about the Christian idea through Paráclito, the Holy Spirit, seeing vaguely, when he says that we are “adapted by nature”. And so, there is an action on us to become able to receive virtue, which in the works of São Tomás de Aquino characterizes the thought of the good use of free will, virtue being the order of our love, in an act of perfection that works in us because of the nature of God Himself.

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