O fetiche da autoajuda

Por Thais Oliveira

O maior fetiche que se tem na atualidade é a busca do bem-estar proporcionado pelo sucesso. E, muitos desnorteados utilizam como forma de abstrair a insatisfação que se tem com a própria vida, a busca pela literatura da autoajuda. A tendência absolutamente propagandeada nesse tipo de livro é  motivar a autoestima. Mas não devemos tratar com desdém achando que é um erro que tem como causa a insipiência. A filosofia também erra cada vez que entra em atrito com aquilo que foge à realidade propriamente dita, como a ideia de que a natureza humana seja boa em si e capaz de evoluir.  

De uns tempos para cá, tem surgido uma novidade no mundo contemporâneo quanto ao tema da moral. Como por exemplo, usar a expressão comportamento, em vez de costumes ou hábitos. É mais elegante falar em comportamento do que em ética. Isso talvez possa até fazer algum sentido para você, porque a palavra ética é um fio condutor de eletricidade, mas é melhor deixar pra lá, porque, apesar de haver muito falatório sobre o assunto, ninguém sabe na verdade o que é.

O coaching não se tornou, por causa das lacunas de referências morais ou espirituais, a mais nova maneira de ser politicamente correto em nossa sociedade “perdida”?

Não podemos deixar de refletir sobre a educação contemporânea, sobretudo para que as escolas sejam mais “solidárias”, diretores mais “gerentes”, os próprios professores mais “treinados” e a empresa, fora de suspeita.

Se por um lado, nasce na empresa o desejo de treinar um membro incompetente ou com baixa produtividade, mas que “não é culpado”, e, por assim dizer, seu chefe procura  “pagar” para que ele se torne um coachee, e “fique desenvolvido com o melhor de seus recursos” e ainda, sem que ele desconfie da ideia promissora de que ele foi treinado com as melhores intenções do mundo. Não é de se estranhar em chamar isso de uma nova forma de controle social que resultaria em novos padrões de comportamento?

Por outro lado, com o treinamento, “Não importa a garrafa em minha mão, o melhor mesmo é a gargalhada embriagada”. Em outras palavras, os métodos são uma mescla simplificada, para não falar confusa, de todos os tipos de técnicas, desde terapias comportamentais para serem “consumidas” rápida, fácil e diretamente, afim de transformar a sua vida  ou o seu trabalho num produto de alta satisfação.

Mas, calma! Existem treinadores e treinadores. Felizmente existem! Que de forma pessoal, sua prática é muito ética, que conhece a importância dos contratos para formar a ponte com o cliente, cujo treinamento rigoroso permite o aprofundamento na complexidade das coisas, correndo o risco  sempre de discordar, porque a vida é precisamente lacunas a serem preenchidas, e, principalmente, confronto.

Há algo mais nessa ideia de treinamento comportamental que possui como uma síntese a moral pública  que não se abstém do âmago da hipocrisia, portanto, não é nenhuma novidade fingir virtudes que não se tem. Quem camufla a infelicidade o tempo todo ou passa a ser legal e simpático não é percebido como hipócrita.

A ideia dessa lógica é você se enxergar como uma empresa, você precisa colocar uma planilha de gráficos do excel em sua vida e ter foco e meta, o que gera adoecimento. Esse mal estar romântico de colocar o olhar sempre para coisas positivas é achar que o vício em tecnologia é uma evolução da espécie.

Sem falar que esse otimismo  exagerado de que o ser humano é bom, remonta ao século XV com a filosofia de Pico Della Mirandola, para quem desejar saber mais, procure seu livro “Da Dignidade da Natureza Humana”, a ideia é de que o otimismo está na vontade de se acreditar num homem livre e autônomo.  

O cultivo da ciência como uma forma de conhecimento seguro do futuro humano, mediante o controle das experiências em laboratório, só fez com que se perdesse a essência humana de quem se é, para quem poderia vir a se tornar.

Aprecio o que Thomas Hobbes fala sobre a natureza humana que é egoísta, medrosa e traiçoeira, porque a vida, mediante às tragédias,  revela  sua precariedade essencial. Por isso que  esse filósofo já discursava que o homem é mau e a sociedade o faz menos mau.

A própria ideia de se dizer que todo mundo tem as mesmas competências ou habilidades  é uma grande falácia.  A indústria da autoajuda serve apenas para inflar o ego humano, porque na verdade é um produto grosseiro da velha natureza humana, a vaidade.

The self-help fetish

By Thais Rocholi

The biggest fetish we have today is the search for happiness. And, many bewildered seek to use as a way of abstracting the dissatisfaction they have with their own lives, the search for self-help literature. The absolutely widespread trend in this type of book is to motivate self-esteem. But we should not underestimate it, thinking that it is a mistake caused by insipience. Philosophy also makes mistakes whenever it comes into friction with that which escapes reality itself, such as the idea that human nature is good in itself and capable of evolving.

For some time now, there has been a novelty in the contemporary world regarding the theme of morals. For example, use the expression behavior, instead of customs or habits. It is more elegant to talk about behavior than ethics. This may even make some sense to you, because the word ethics is a conducting wire of electricity, but it is better not to mention it, because, despite being part of everyone’s speech, nobody really knows what it is.

Hasn’t coaching become, because of gaps in moral or spiritual references, the newest way to be politically correct in our “lost” society?

We can not fail to reflect on contemporary education, especially so that schools are more “solidary”, principals more “managers”, the teachers more “trained” and the company, out of suspicion.

If, on the one hand, the company is born with the desire to train an incompetent or low-productivity member, but who is “not to blame”, and so, his boss seeks to “pay” so that he becomes a coachee, and “becomes developed with the best of your resources “and still without him distrusting the promising idea that he was trained with the best intentions in the world through this training program. Isn’t it strange to call this a new form of social control that would result in new patterns of behavior?

On the other hand, with the training, “It doesn’t matter which bottle is in my hand, the best part is drunken laughter”. In other words, the methods are a simplified, not to mention confused, mix of all types of techniques, from behavioral therapies to be “consumed” quickly, easily and directly, in order to transform your life or work into a product of high satisfaction.

But, calm down! There are coaches and coaches. Fortunately there are! That in a personal way, his practice is very ethical, that he knows the importance of contracts to form the bridge with the client, whose rigorous training allows the deepening in the complexity of things, always running the risk of disagreeing, because life is precisely gaps to be filled, and, mainly, confrontation.

There is something more in this idea of ​​behavioral training that has public morality as its essence, which is still a hypocrisy, so it is nothing new to pretend virtues that you don’t have. Anyone who pretends to be happy all the time or to be nice and nice is not perceived as a hypocrite.

The idea of ​​this logic is that you see yourself as a company, you need to put an excel chart spreadsheet in your life and have focus and goal, which creates illness. This romantic malaise of always looking for positive things is to think that technology addiction is an evolution of the species.

Not to mention that this exaggerated optimism that the human being is good, dates back to the 15th century with the philosophy of Pico Della Mirandola, for those who want to know more, look for his book “Da Dignidade da Natureza Humana”, the idea is that optimism is willing to believe in a free and autonomous man. The cult of science as a form of secure knowledge of the human future, through the control of laboratory experiments, only lost the human essence of who you are to whom you could become.

I appreciate what Thomas Hobbes says about human nature that is selfish, fearful and treacherous, because life, through chaos, reveals its essential precariousness. That is why this philosopher was already saying that man is bad and society makes him less bad.

The very idea of ​​saying that everyone has the same abilities is a great fallacy. The self-help game serves only to inflate the human ego, because it is actually a crude product of the old human nature, vanity.

 

Um comentário em “O fetiche da autoajuda

  1. Indeed it is. Last time I had a discussion with an environmental activist. I said the biggest problem we are dealing with today is that we are with too many people. I told her the only thing to help nature is to grow up less people over the whole world. When we all have only one child the population will be halved in only one generation. You cannot think what she wrote me that day. When I asked her how many children she had the conversation stopped. I said that every child likes toys, they have to eat, to live, to shit… When they grow up they like a home on their own. So deforestation is a big problem due to too many people. They all have to eat. So clearing forests to make fields to grow crops or animals.

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